Quem sou eu

Niterói, RJ
Médico Veterinário que trabalha no tratamento e no estudo de distúrbios de comportamento em cães e gatos. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/9116323178127878

segunda-feira, 30 de abril de 2018

ESTUDO DO PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DAS AGRESSÕES DE CÃES AOS HUMANOS NO MUNICÍPIO DE VASSOURAS/RJ

Os ataques de cães a seres humanos figuram como importante problema de saúde pública, devido ao risco da ocorrência de zoonoses, infecções secundárias, à necessidade de vacinação anti-rábica, e ao possível desenvolvimento de estresse pós-traumático nas vítimas. Com o objetivo de entender a dinâmica dos ataques ocorridos no município de Vassouras – RJ, no período de 2010 a 2017, o presente estudo baseou-se na resposta de questionários às vítimas dos ataques aplicados nos bairros distintos Ipiranga e Grecco, que identificam o perfil da vítima e do agressor, possível desenvolvimento de sequelas psicológicas no que diz respeito ao medo de cães. Entre 322 questionários aplicados, foram encontrados 93 casos de ataques caninos, demonstrando grande ocorrência de ataques no município, com possível potencial zoonótico, casos de subnotificação e gastos com tratamento das lesões ocorridas, destacando a prevalência dos ataques em ambos os bairros

Para acessar o artigo completo, clique no link https://doi.org/10.21727/rs.v8i2.1118

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Tradução e Validação do CBAR-Q

A partir deste artigo, quem quiser usar uma versão em português do questionário comportamental para cães desenvolvido pelo professor James Serpell, da Universidade da Pensilvânia, já tem essa possibilidade.
Quando eu pedi autorização ao Serpell para usar o questionário, ele me autorizou e pediu que o citasse nos agradecimentos. Portanto, acho elegante quem foi usar o questionário fazer a mesma coisa. Agradecer ao Serpell.

Que façamos bom proveito!

http://revistas.ufpr.br/veterinary/article/view/47552/32823

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dominância Canina


Quando comecei a estudar comportamento dos cães, aprendi que havia entre os cães uma forte necessidade de hierarquia e que tal hierarquia era estabelecida por relações de dominância X submissão. Além disso, que o cão ao ser inserido na família humana buscaria identificar tal hierarquia e ocuparia o posto hierárquico que lhe fosse permitido.
Tal informação foi uma inferência a partir de estudos feitos com comportamentos de lobos em condições não naturais. Lobos Cinzentos que foram capturados individualmente em locais distintos e transferidos para parques nacionais ou santuários. Tal inferência se desenvolveu e deu origem a uma teoria não escrita batizada de “teoria da matilha”. Tal conceito levou e ainda leva muitas pessoas a tentar impor uma liderança conquistada pela força com os cães.
Ao começar os estudos do meu doutorado, em 2008, eu ainda pensava assim. Porém algumas coisas me chamaram atenção:

  • (A)  Os casos que eu atendia, que tinham o contexto de agressão por dominância descrito na literatura, na maioria das vezes aconteciam com os cães com posturas de medo. Quando o esperado seria uma postura altiva característica de um animal que tenta se sobrepor hierarquicamente ao outro. O que também foi descrito por Luescher e Reisner em 20001
  • (B)  Uma das etapas da minha tese foi utilizar o teste de Campbell em filhotes. O teste de Campbell tem o objetivo de testar o grau de dominância dos filhotes. Como o teste fora publicado em 19722 e nunca fora validado, fui tentar validá-lo a partir da comparação de seus resultados com os resultados do etograma das ninhadas3 e vimos que não havia relação entre os escores de dominância obtidos das duas maneiras.
  • (C) Li um artigo4 que questionava as técnicas baseadas em hierarquia usadas para o tratamento de agressão entre cães.
  • (D)   Li o livro da Dra. Tample Grandin5 que falava sobre o bem-estar de animais domésticos e questionava o conceito de dominância canina pelos seguintes pontos: Cães são cognitivamente diferentes de lobos cinzentos e os estudos posteriores feitos com observação de lobos em condições naturais descreveram que estes têm uma hierarquia familiar sem a necessidade do estabelecimento de relações de dominância.

Mas então como é? Vejo alguns autores e algumas associações ainda presos ao conceito da dominância despótica, do cão que quer dominar todos ao seu redor. Mas, eu cada vez mais me convenço que a estrutura social canina é muito mais próxima da estrutura social humana do que da do lobo cinzento. O prof. João Telhado no seu capítulo sobre Comportamento Social canino6 diz com muito bom humor que cães não conhecem o alfabeto grego. Em grupos de cães errantes ou semidomicilados não há a figura do casal alfa, encontrado em grupos de lobos, assim como não há um líder absoluto do grupo.

Então, dominância não existe? Existe. Mas se refere a relações estabelecidas entre dois indivíduos no contexto da prioridade de acesso ou do controle de determinado recurso e pode ser estabelecida de forma pacífica ou agressiva. Assim como há relações de dominância entre seres humanos ou quaisquer outros animais sociais.

Mas, como estabelecer o controle sobre o cão? Confiança. Estabeleça um vínculo de confiança com seu cão. Seja coerente, seu cão precisa saber que determinado comando ou forma de interação acarretará determinada recompensa ou não. E, por fim, eduque seu cão. Ele precisa saber o que ele pode e não pode fazer de forma clara e compatível com sua capacidade cognitiva.


Referências
1-      LUESCHER, A. U.; REISNER, I. R. Canine aggression toward familiar people: a new look at an old problem, Veterinary Clinics of North America, Small Animal Practice, v. 38, n. 5, p.1107-1130, 2008.
2-      CAMPBELL, W. E. A behavior test for puppy selection. Modern Veterinary Practice., v. 53, n. 12, p. 29-33, 1972.
4-      VAN KERKHOVE, W. A Fresh Look at the Wolf-Pack Theory of Companion-Animal Dog Social Behavior, Journal of Applied Animal Welfare Science, v. 7, n. 4, p. 279–285, 2004.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Nota preliminar sobre o uso de feromônio para reduzir sinais de ansiedade e medo nos cães em ambiente de banho e tosa


RESUMO: O fato de muitos cães desenvolverem sinais de medo e ansiedade nos ambientes destinados a serviços de banho e tosa foi a motivação para a realização deste estudo, que avaliou a eficiência do Feromônio tranqüilizador de cães (D.A.P.® - Dog Appeasing Pheromone – Ceva Santé Animale) na redução de tais sinais. Os sinais observados foram: agressividade, midríase, salivação, sapateios e vocalizações. Todos os animais apresentaram redução na apresentação dos sinais após sete dias de instalação do difusor no ambiente do banho e tosa. Tais resultados trazem uma nova perspectiva para a melhoria da qualidade de vida dos cães domésticos que são submetidos a procedimentos de banho e tosa.
SOARES, et al. A Hora Veterinária, v. 31, n. 186, p.24-28, 2012

terça-feira, 12 de julho de 2011

COMPARAÇÃO DO COMPORTAMENTO DOMINANTE DE FILHOTES DE CÃES DE CINCO RAÇAS

RESUMO - Campbell, em 1972, desenvolveu um teste para seleção de filhotes de cães, com objetivo de determinar seu grau de dominância para direcioná-los para uma atividade ou família compatível. No presente estudo, este teste foi aplicado em filhotes de cinco raças para avaliar possíveis diferenças comportamentais. Os filhotes (138 Labrador; 71 Rottweiler, 31 Bull Terrier, 13 Cocker Spaniel Inglês e 12 Pit Bull), com idade entre seis e oito semanas foram testados em seus canis de origem. Os resultados foram analisados estatisticamente através do teste de Kruskal-Wallis e a comparação entre os pares pelo teste de Student-Newman-Keuls. Os filhotes de American Pit Bull obtiveram maior pontuação geral, porém sem diferença significativa para os demais, já os filhotes de Labrador mostraram maior pontuação total no teste comparado aos de Rottweiler (P=0,02) e Bull Terrier (P=0,01). Com esses resultados pode-se caracterizar uma maior atração do filhote de Labrador ou uma maior independência do filhote de Rottweiler e de Bull Terrier em relação ao ser humano.

sábado, 23 de abril de 2011

Hiperatividade canina

A hiperatividade é uma queixa relativamente comum dos proprietários de cães. A inexistência de um manual único e confiável que descreva os distúrbios e problemas de comportamento dos animais torna o diagnóstico de hiperatividade uma tarefa difícil. Fica sempre a dúvida, o cão é hiperativo ou mal educado? Recorrendo aos principais livros de etologia clínica, vemos a hiperatividade como um parágrafo ou, no máximo, uma coluna perdida num capítulo. O que não esclarece muito aos leitores e continua complicando o diagnóstico.

Como tive que preparar uma palestra sobre o assunto, vou compartilhar o que concluí a partir de meus estudos sobre o tema.

O termo HIPERATIVIDADE, pode ser usado em dois contextos clínicos diferentes. Um cão que é excessivamente ativo, a não ser que se crie uma nova terminologia como: SUPERATIVO ou  MEGA-ATIVO, pode ser chamado de Hiperativo. O prefixo "Hiper" seguido do adjetivo "ativo" qualifica o indivíduo como aquele que tem atividade excessiva, portanto pode ser aplicado em quaisquer situações em que o cão apresente comportamento exacerbadamente mais ativo do que o esperado.

Essa ambiguidade do termo vai de encontro com o que alguns autores dizem. Esses consideram como hiperativos os animais com um distúrbio neuro-funcional equivalente ao TDAH dos seres humanos. Tal distúrbio ocorre provavelmente por uma disfunção na produção/captação da Dopamina no Sistema Nervoso Central (SNC).

Então, como diferenciar? Podemos chamar a hiperatividade decorrente da disfunção neuro-funcional de Primária ou Verdadeira, e a Hiperatividade decorrente de um comportamento adquirido a partir da interação do cão com o meio (físico ou social) como Hiperatividade Secundária ou Adquirida.

HIPERATIVIDADE PRIMÁRIA

Como já foi dito, este quadro ocorre por uma captação ou produção anormal de Dopamina no SNC e é equivalente ao TDAH (Transtorno de Défict de Atenção e Hiperatividade) em seres humanos.

Como sinais da Hipertatividade Primária encontramos:

Falha para se acalmarem em ambientes neutros;
Pouca atenção;
Baixa treinabilidade;
Exibições agressivas;
Agitação.


A apresentação deste quadro é bem semelhante ao da Hiperatividade Secundária, porém há dois itens de diagnóstico diferencial: avaliar a capacidade de aprendizado e avaliar a resposta ao tratamento farmacológico.

Um cão primariamente hiperativo não consegue aprender com a mesma facilidade de um cão "normal". Então, um teste simples a ser feito é ensinar um comando simples ao cão, como SENTA,  por exemplo. Se ele aprender com facilidade, é possível descartar o quadro de Hip. Primária. Mas o cão pode não aprender por outras razões, como: ambiente desconhecido, falta de interesse pela recompensa (não gosta do petisco ou acabou de se alimentar, p. ex.) ou dificuldades motoras (displasia coxo-femoral, deslocamento de patela ou características raciais como as patas dos bassets). Nesses casos é importante fazer o diagnóstico medicamnetoso. Cães "normais" ficam mais excitados com o uso de anfetaminas, os cães verdadeiramente hiperativos se acalmam.

HIPERATIVIDADE SECUNDÁRIA

Este tipo de hiperatividade é decorrente de um desequilíbrio entre as necessidades físicas do cão e o que lhe é proporcionado em termos de espaço e interação. O cão pode requerer uma demanda de atividade maior do que lhe é ofericida. Por exemplo, a raça Border Colie foi desenvolvida para pastoreio de ovelhas, são cães bastante ativos. Ter um Border colie em um apartamento pequeno (ou dentro de casa) e não dedicar pelo menos umas 2-3horas de atividade com ele (brincadeiras e passeios) é praticamente uma receita certa para produzir um cão secundariamente hiperativo.



Cães que vivem em espaços pequenos e cães que vivem em ambientes conflituosos também tendem à Hiperatividade Secundária. Alguns cães são hiperativos poque aprenderam a sê-lo, a única maneira de ter a atenção das pessoas é comportando-se como o personagem Taz da Warner Bros.



A hiperatividade primária ou secundária é um forte argumento para que todo cão seja educado desde filhote e que a opção, a escolha e a interação do proprietário com o cão sejam orientadas por um profissional.

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