Quem sou eu

Niterói, RJ
Médico Veterinário que trabalha no tratamento e no estudo de distúrbios de comportamento em cães e gatos. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/9116323178127878 e-mail: gsoaresvet@oi.com.br

terça-feira, 20 de maio de 2008

Pit Bulls Voltam ao Ataque

Hoje, li duas matérias no http://www.g1.com.br/ onde cães da raça Pit Bull atacaram e feriram pessoas, uma jovem em Chapecó (SC) e uma criança de um ano e meio em Caçapava (SP). Nos dois casos os cães eram de pessoas próximas das vítimas, se soltaram de onde estavam presos e partiram para o ataque. Até quando isso vai continuar? Quando faço essa pergunta não me refiro aos Pit Bulls, mas sim à mentalidade estragada que motiva pessoas, sem nenhum preparo e discernimento, a possuirem cães e, o que é pior, cães muito fortes. Outra pergunta que sempre me faço ao ler essas matérias é se os cães são realmente da raça divulgada, já vi muito vira-lata passar por Pit Bull porque atacou alguém.
É necessário que as pessoas tenham consciência da responsabilidade que é "ter" um cão, principalemente um cão grande e forte. Cães são animais, são carnívoros, são predadores, vivem em matilhas e defendem seus territórios com unhas e dentes (mais dentes que unhas). Se esses animais não forem criados para conviver harmonicamente com qualquer pessoa, podem se tornar perigosos. Digo isso para qualquer cão, do Chiuaua ao Dog Alemão. A maioria dos ataques de cães acontecem contra o próprio "dono" ou pessoa de seu convívio próximo. Pouquíssimos são os ladrões, assassinos e meliantes mordidos por cães que frustram suas atividades ilícitas.
Ontem, chamei a atenção para o fato dos proprietários estarem sendo arrastados nas ruas por seus cães. O pior é que uma coisa tem relação com a outra. Um cão que não é controlado durante um passeio onde é ele que leva a pessoa para passear, não será controlado se achar que uma pessoa está invadindo o seu território ou está "ameaçando" (na visão do cão) a sua integridade física ou de alguém próximo a ele.
Está na hora de mudarmos a mentalidade. Está na hora de não permitirmos que esses cães (que são vítimas também) continuem sofrendo e morrendo porque seus "donos" não os ensinaram a viver numa sociedade humana onde matar é crime. Está na hora de cobrarmos de nossos governos leis de gurada responsável, porque existem pessoas que só começam a enxergar a situação quando há uma lei que as puna se não fizerem a coisa certa. Vejam os cintos de segurança dos carros e os capacetes das motos. Ás vezes percorro meus trajetos caminhando e reparando a quantidade de pessoas que andam sem cinto / capacete nas ruas de Niterói. É ridículo que um cidadão tenha que ser punido por não zelar pela sua própria segurança e o mesmo raciocínio vale para a gurada de cães. Se você não quer colocar o cinto, vá a pé. Se não quer colocar o capacete, vá de ônibus (trem, metrô...), se não quer (não sabe, não gosta) educar o seu cão, tenha um bicho de pelúcia!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Antropomorfismo - Um problema que gera problemas

Hoje, lendo algumas matéria publicadas no www.g1.com.br me deparei com duas sobre cães. A primeira descrevia um desfile de modas para cães com o tema noivas (muito apropriado para o mês corrente, diga-se de passagem). O que me preocupa é a motivação de cada participante do evento http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL473498-5606,00.html. Se o que os levou a fantasiar seus cães foi somente a curtição de expor uma cadela com um véu enorme como crítica social à indumentária usada nos casórios, menos mal. Mas, como eu imagino que seja, se a motivação foi expor o cão fantasiado com orgulho da mãe que assiste ao balé da filha ou do pai que comemora o gol de seu rebento de 5 anos na escolinha, aí é realmente preocupante. Os cães nos dedicam um amor incondicional (vamos chamar assim para ficar mais claro o entendimento) e continuam nos amando apesar das barbaridades que fazemos com eles. E o fato de olhar o cão e ver uma válvula de escape, uma muleta emocional, um filho ou um neto, é jogar na garupa do cão uma responsabilidade muito maior do que ele pode carregar. Os cães são criaturas excepcionais, são inteligentes, leais, carinhosos, percebem nossas carências e frustrações, mas só sabem ser cães.
Dentro dessa ótica, me preocupou a segunda matéria que li (http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL476636-5598,00-CAOMINHADA+REUNE+CERCA+DE+CAES+EM+BLUMENAU.html) , sobre a cãominhada em Blumenau-SC, na qual diversas pessoas caminharam juntas com seus cães por aproximadamente uma hora. Uma iniciativa muito bacana! Fiquei pensando como seria bom se houvessem mais cãominhadas espalhadas pelo país e com uma freqüência constante. Porém, o que me preocupou foi a foto do evento, onde todos os cães que pude reparar andavam na frente de seus donos evidentemente puxando suas guias. Tal postura do peludo é interpretada como manifestação de dominância, ou seja, para esses cães quem manda na relação são eles. E quando são os "reis da cocada preta", esses animais costumam ser bem tiranos com seus súditos de duas patas. A agressão por dominância é o problema de comportamento que mais leva proprietários a procurar veterinários especialistas em etologia clínica no mundo inteiro e, possivelmente, a principal causa de abandono de cães e eutanásia em diversos países.
Eu ficarei imensamente feliz no dia em que os cães forem amados como cães, respeitados e tratados como sua espécie necessita. Neste dia poderemos constatar uma sociedade melhor para os cães e certamente para os seres humanos que os cercam.

Cães que latem muito, um problema com solução.

É comum ouvirmos relatos de pessoas envolvidas em litígios, até judiciais, com seus vizinhos, decorrentes dos latidos excessivos de seus cães. Temos que concordar que um cão latindo exaustivamente pode causar um desconforto que beira a loucura. A boa notícia é que existe tratamento para quase todas as manifestações de latidos excessivos, com terapias comportamentais para cães.
Talvez uma das histórias mais comuns seja a do cão que late assustadoramente (ou chora ou uiva) quando fica sozinho em casa e cujo dono muitas vezes não o escuta latir, ficando para esta pessoa a nítida sensação que algum vizinho ou o síndico do prédio o persegue.
Uma das explicações para o dono do cão não ouvir seus latidos é que, normalmente, o cão começa a latir quando perde o contato olfativo com seu dono, o que normalmente ocorre depois do dono perder o contato auditivo com o cão. E na volta, o cão pára de latir antes de o dono ouvi-lo pelo mesmo motivo.
Cães que latem quando ficam sozinhos em casa podem estar sofrendo de uma doença, uma síndrome clínica chamada de Síndrome de Ansiedade de Separação, que é caracterizada por um conjunto de comportamentos decorrentes de alterações neuro-biológicas no Sistema Nervoso Central dos cães (também podendo acometer gatos). Essas alterações são comparadas àquelas apresentadas por pessoas que sofrem de Síndrome do Pânico e causam um forte impacto na qualidade de vida dos animais. Estes, além das vocalizações excessivas podem apresentar comportamentos destrutivos, micções e defecações em locais inapropriados, vômitos, excesso de salivação e depressão. Pode também trazer como conseqüências comportamentos compulsivos (p.ex. lamber em excesso alguma parte do corpo ou objeto externo, caçar insetos inexistentes, correr atrás da cauda, andar em círculos ou desencadear movimentos ritmados de cabeça ou com o corpo). Todos esses comportamentos que podem se apresentar combinados ou isolados normalmente são inconvenientes para os proprietários desses cães.
Existem duas medidas práticas para prevenir o desenvolvimento dessa síndrome. A primeira é respeitar o período natural de separação do cão, ou seja, imitar o que ocorre naturalmente em grupos de cães, onde o filhote é posto à margem da matilha com cerca de quatro meses. Nesta fase o cãozinho tem que aprender a se virar sozinho e não é mais beneficiado com alimento e abrigo. Para simular esta realidade em casa deve ser providenciado um cantinho para o filhote dormir longe dos quartos. A outra medida é promover o máximo de interação possível com o cão, passear bastante, brincar bastante e escovar diariamente. A única ressalva é que toda interação deverá ser iniciada e finalizada por iniciativa do proprietário, não devendo este responder às solicitações do cão neste sentido para não gerar outros problemas de comportamento no peludo.
É importante ressaltar que os cães podem estar sofrendo de doenças e por isso latem. Porque assim a relação de tolerância e cooperação entre os vizinhos é capaz de mudar e a alternativa de tratar esses animais pode se mostrar mais consensual para todos (principalmente para os cães) do que providenciar a extradição do animal do condomínio ou duelos e atritos entre as partes.
Concluindo, se seu vizinho tem um cão que late exageradamente quando fica sozinho, se compadeça dele e oriente-o. Este cão pode estar sofrendo de um transtorno clínico-comportamental (para não chamar de psiquiátrico). Oriente-o a procurar um Médico Veterinário para que ele proponha o tratamento mais adequado e principalmente ajude-o, pois ele precisará de apoio para o tratamento. Saiba que estará contribuindo para o bem-estar daquela família (incluindo o cão) e poderá estar ganhando a confiança e a amizade de seu vizinho.
Então vão algumas dicas para evitar ou minimizar diversos problemas, inclusive a Síndrome de Ansiedade de Separação:
- Respeite seu cão como ele é, ou seja, um cão. Não queira dele mais do que ele pode te dar;
- Socialize e eduque seu cão desde filhote, assim como as pessoas, todo cão deve ser educado. Todo cão deve ser socialmente aceitável por todos e não somente suportado por algumas pessoas;
- Interaja de forma consistente com seu cão, ele é um animal social que precisa de interação de qualidade;
- Cães de apartamento precisam de exercícios regulares, portanto o cão não deve ir à rua somente para ir ao “banheiro”. Pelo menos 30minutos de passeios diários farão muito bem ao peludo;
- Ensine seu cão a ficar sozinho desde filhote;
- Em casos de mudanças previsíveis na rotina (volta de férias, mudança de horários de trabalho, nascimento de bebês, etc), habitue seu cão a elas, para que ele não se depare com uma situação nova de repente.
- Seja consistente na relação com seu cão, como crianças eles precisam de coerência nas regras de convivência. Por exemplo, se você não quer seu cão em cima da sua cama quando ele estiver sujo ou quando você estiver querendo dormir sem ele, não deixe que ele suba em nenhuma situação.

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