Quem sou eu

Niterói, RJ
Médico Veterinário que trabalha no tratamento e no estudo de distúrbios de comportamento em cães e gatos. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/9116323178127878

sábado, 23 de abril de 2011

Hiperatividade canina

A hiperatividade é uma queixa relativamente comum dos proprietários de cães. A inexistência de um manual único e confiável que descreva os distúrbios e problemas de comportamento dos animais torna o diagnóstico de hiperatividade uma tarefa difícil. Fica sempre a dúvida, o cão é hiperativo ou mal educado? Recorrendo aos principais livros de etologia clínica, vemos a hiperatividade como um parágrafo ou, no máximo, uma coluna perdida num capítulo. O que não esclarece muito aos leitores e continua complicando o diagnóstico.

Como tive que preparar uma palestra sobre o assunto, vou compartilhar o que concluí a partir de meus estudos sobre o tema.

O termo HIPERATIVIDADE, pode ser usado em dois contextos clínicos diferentes. Um cão que é excessivamente ativo, a não ser que se crie uma nova terminologia como: SUPERATIVO ou  MEGA-ATIVO, pode ser chamado de Hiperativo. O prefixo "Hiper" seguido do adjetivo "ativo" qualifica o indivíduo como aquele que tem atividade excessiva, portanto pode ser aplicado em quaisquer situações em que o cão apresente comportamento exacerbadamente mais ativo do que o esperado.

Essa ambiguidade do termo vai de encontro com o que alguns autores dizem. Esses consideram como hiperativos os animais com um distúrbio neuro-funcional equivalente ao TDAH dos seres humanos. Tal distúrbio ocorre provavelmente por uma disfunção na produção/captação da Dopamina no Sistema Nervoso Central (SNC).

Então, como diferenciar? Podemos chamar a hiperatividade decorrente da disfunção neuro-funcional de Primária ou Verdadeira, e a Hiperatividade decorrente de um comportamento adquirido a partir da interação do cão com o meio (físico ou social) como Hiperatividade Secundária ou Adquirida.

HIPERATIVIDADE PRIMÁRIA

Como já foi dito, este quadro ocorre por uma captação ou produção anormal de Dopamina no SNC e é equivalente ao TDAH (Transtorno de Défict de Atenção e Hiperatividade) em seres humanos.

Como sinais da Hipertatividade Primária encontramos:

Falha para se acalmarem em ambientes neutros;
Pouca atenção;
Baixa treinabilidade;
Exibições agressivas;
Agitação.


A apresentação deste quadro é bem semelhante ao da Hiperatividade Secundária, porém há dois itens de diagnóstico diferencial: avaliar a capacidade de aprendizado e avaliar a resposta ao tratamento farmacológico.

Um cão primariamente hiperativo não consegue aprender com a mesma facilidade de um cão "normal". Então, um teste simples a ser feito é ensinar um comando simples ao cão, como SENTA,  por exemplo. Se ele aprender com facilidade, é possível descartar o quadro de Hip. Primária. Mas o cão pode não aprender por outras razões, como: ambiente desconhecido, falta de interesse pela recompensa (não gosta do petisco ou acabou de se alimentar, p. ex.) ou dificuldades motoras (displasia coxo-femoral, deslocamento de patela ou características raciais como as patas dos bassets). Nesses casos é importante fazer o diagnóstico medicamnetoso. Cães "normais" ficam mais excitados com o uso de anfetaminas, os cães verdadeiramente hiperativos se acalmam.

HIPERATIVIDADE SECUNDÁRIA

Este tipo de hiperatividade é decorrente de um desequilíbrio entre as necessidades físicas do cão e o que lhe é proporcionado em termos de espaço e interação. O cão pode requerer uma demanda de atividade maior do que lhe é ofericida. Por exemplo, a raça Border Colie foi desenvolvida para pastoreio de ovelhas, são cães bastante ativos. Ter um Border colie em um apartamento pequeno (ou dentro de casa) e não dedicar pelo menos umas 2-3horas de atividade com ele (brincadeiras e passeios) é praticamente uma receita certa para produzir um cão secundariamente hiperativo.



Cães que vivem em espaços pequenos e cães que vivem em ambientes conflituosos também tendem à Hiperatividade Secundária. Alguns cães são hiperativos poque aprenderam a sê-lo, a única maneira de ter a atenção das pessoas é comportando-se como o personagem Taz da Warner Bros.



A hiperatividade primária ou secundária é um forte argumento para que todo cão seja educado desde filhote e que a opção, a escolha e a interação do proprietário com o cão sejam orientadas por um profissional.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Coprofagia Canina

A coprofagia é um comportamento que enoja muitos proprietários. Ver seu cão comendo fezes, admito, não é a visão mais bonita do mundo. Mas, que problemas tal comportamento pode trazer e por que ele acontece?

A consequência clínica da coprofagia vai depender da qualidade do "produto" que o cão está ingerindo. As fezes podem ser veiculadoras que bactérias patogênicas e parasitas. Mas, se o "produtor" é saudável e conhecido, o risco reduz-se significativamente. Talvez a principal consequência da coprofagia seja a rejeição do cão pela família humana com que ele vive. As pessoas tendem a ter nojo do cão ao vê-lo degustar fezes e isso pode gerar ansiedade no cão que não sabe por que está sendo rejeitado.

A coprofagia pode não ser nada de mais ou pode ser sinal que há alguma coisa errada na nutrição do cão ou em sua qualidade de vida.

Por que acontece?

Cães têm uma natureza coprófaga. Ou seja, fezes fazem parte do cardápio natural dos cães desde antes da domesticação da espécie. Há uma teoria que diz que a coprofagia inclusive aproximou o canídeo primitivo do ser humano primitivo. Coincidência ou não, a domesticação do cão iniciou-se na mesma época em que o ser humano deixa de ser nômade e passa a fixar residência. Enquanto era nômade, o destino das suas fezes não era um problema muito sério, visto que eles viviam literalmente evacuando (para economizar um termo mais chulo) e andando. Suas migrações faziam com que deixassem para trás as latrinas como estivessem. No momento em que fixam residência, as latrinas passam a ser um problema. Eis o que sugere  REID (2009):

“Os seres humanos desde o início da domesticação disponibilizaram aos  canídeos uma fonte de alimento rico em restos alimentares humanos e resíduos de fezes e os animais foram tolerados
talvez até mesmo encorajados, próximos a assentamentos humanos para desempenhar o seu papel como unidade de eliminação de lixo biológico.”

Então é perfeitamente comum que o cão procure nutrientes nessa fonte pouco convidativa para nós humanos. Fezes humanas têm muitos nutrientes "sobrando", principalmente proteínas e gorduras o que as tornam muito atrativas. Fezes de gato também são ricas em proteínas. Fezes de herbívoros são ricas em fibras. Se o caso de coprofagia do seu cão se enquadra nessas opções, pouco provavelmente ele tem algum problema.

Se ele ingere fezes de outros cães, pode estar também buscando nutrientes ou pode ser um comportamento movido pela hierarquia social, na qual o mais submisso acaba ingerindo as fezes do mais dominante. Ainda nesse contexto no qual a opção do menu são fezes caninas, as fêmeas naturalmente ingerem as fezes dos seus filhotes até 15-21 dias de vida. 

Agora se ele ingere as próprias fezes? 

Algumas raças, como o Shi tzu, o Lhasa e o Pug têm predisposição para este comportamento. Portanto, a motivação é congênita.

Alguns cães em seu período "pré-adolescente" também desenvolvem naturalemente este hábito. Neste caso, se ninguém reforçar o comportamento ele pode se extinguir quando este animal amadurecer. Por falar em reforço, a coprofagia é um comportamento autorrecompensador. O cão se sente premiado pelo próprio objeto que o leva ao comportamento. Fato que pode dificultar o tratamento, visto que o cão é reforçado sempre que o faz. Mas, há um outro reforço importante para esse comportamento, que é a atenção do proprietário. Dar atenção até mesmo para dar uma bronca no cão é uma forma de reforço, principalmente se há pouca interação entre o cão e o proprietário em outros contextos. Por isso, o cão pode ingerir fezes para chamar a atenção do proprietário. O proprietário também pode ser "culpado" da coprofagia por ter induzido o cão à coprofagia, no momento em que o puniu severamente por ele ter "descomido" em local inapropriado.

Até aqui, a coprofagia é ou um comportamento normal ou um comportamento aprendido. Mas, como eu disse, a coprofagia pode ser sinal de alterações clínicas no cão. Qualquer alteração hormonal aque aumente a sensação de fome (hiperadreno, hipertireoidismo ou diabetes) podem fazer com que o cão busque nas fezes a complementação da dieta que ele acha que está faltando.

Quadros de déficit nutricional (baixa qualidade da ração ou verminoses) também podem levar o cão à coprofagia. Nos casos em que a coprofagia é sintoma, ela vem acompanhada de outros sintomas que configurem o quadro mórbido original.

A coprofagia pode ser sinal de que a qualidade de vida do cão está abaixo do esperado. Cães que vivem em ambientes de conflito permanete (ele com outros cães, ele com algum familiar ou os familiares entre si) ou viva com espaço e/ou nivel de atividade inadequados também podem usar a coprofagia como "válvula de escape". Neste caso é importante que se busque a origem do problema para extinguir a coprofagia.

Concluindo, a coprofagia isoladamente pode não ser nenhum distúrbio sério de comportamento, mas pode ser sinal de que o cão tem algum problema clínico ou que seja necessário proporcionar mais qualidade de vida para o cão.

REID, P. J. Adapting to the human world: Dogs’ responsiveness to our social cues  Behavioural Processes, 80 (3):325-333, 2009.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cães que latem muito II

Esta postagem tem o objetivo de complementar a "Cães que latem muito...". Na referida postagem, eu me referi especificamente à Ansiedade de Separação, mas os cães não latem só nesses casos e isso pode ser observado por quelaquer um que já tenha visto um cão. Por que eles latem? Algum engraçadinho vai dizer: porque eles não sabem falar! Mas é um pouco mais complexo do que isso.

Os cães tiveram sua domesticação iniciada há mais de 10 mil anos. É possível que tenha sido o primeiro animal domesticado e certamente é a espécie que mais sofreu influências humanas diretas em sua evolução. Acredita-se que o ancestral do nosso cão doméstico seja o Lobo Cinzento Europeu. Mas aí alguem que conheça o comortamento dos lobos europeus vai dizer: "Esses animais latem muito pouco, muito pouco mesmo!! Por que o cachorro late tanto?" 

O que nós conhecemos hoje como Canis familiares é um animal fruto de uma forte pressão de seleção artificial. Os seres humanos vêm selecionado os cães e manipulando-os geneticamente por cruzamentos dirigidos há muito tempo. Tal fator é responsável pela imensa diversidade morfológica da espécie que contém desde cães mínimos como o Chiuaua (um adulto pode pesar menos de 1Kg) até cães enormes como o Dinamarques (um adulto pode pesar mais de 80Kg). Essa mesma seleção artificial provocou um fenômeno chamado Neotenia (persistência de comportamentos infantilizados no adulto), tendo uma de suas características a persistência da vocalização além da infância. Falando em português mais claro, o ser humano fez do cão um animal mais vocalizador por desejar tal comportamento. Isso é fácil de perceber, pois há raças que praticamente não latem (Husky siberiano e Basenji, por exemplo). Essas raças não tiveram a seleção de tal característica na sua origem. Da mesma forma, há raças que latem muito (Terrier Brasileiro, Pincher, Doberman, por exemplo).



"Tudo bem, como o programa Latidos 2.0 foi instalado no sistema operacional canino eu já entendi, mas por que eles latem?"

Cães latem por diversas razões: para afugentar um invasor, como forma de intimidação (antes de um ataque), como estratégia de caça, para chamar atenção das pessoas ou  para imitá-las. Sendo importante ressaltar que em grande parte desses contextos há aprendizado no comportamento, ou seja, o cão aprende que latindo consegue o que quer (afugentar o invasor, não ser obrigado a se arriscar em um embate físico, levar a presa para onde quer ou ganhar a atenção das pessoas como prêmio).

Um cão que late no portão e consegue que o pretenso invasor de seu território se vá, teve sua recompensa. Mas normalmente esse contexto não fica tão claro para o transeunte. Se fosse possível traduzir os pensamentos desses dois personagens (o cão guardião e o transeunte) veríamos duas ideias completamnete distintas.

O cão: " Vá embora daqui seu abusado que está invadindo meu território!!! Eu sou the best! Latí um pouquinho e o covarde se foi!"
O transeunte: "Tô indo pra minha casa, doidinho pra jantar. Cachorro chato, toda vez que passo em frente a essa casa, essa peste late pra mim. Bicho inconveniente!!!"

O transeunte não sabe que aquele pedaço da calçada é território do cachorro, para ele o muro marca o fim da propriedade instituída e registrada em cartório, a calçada é parte da rua e a rua é pública. Mas o cão pode enxergar limites territoriais superiores aos que lhe impomos e isso pode ser um grande problema quando esse cachorro consegue sair dos limites do portão, pois ele pode atacar esse transeunte desavisado. Ninguém avisou ao cão que o cidadão já iria passar mesmo por ali, ele não iria parar ou entrar mais no território do cão, por isso o peludo se sente o "rei da cocada preta" quando tem sucesso no seu intento de rechaçar o invasor.

Outro contexto comum que se torna queixa por parte de quem convive com o cão é o cachorro que late para o interfone. Imagine a cena: o interfone toca, a pessoa está no quarto e grita "Fulaninho, atende ai pra mim, por favor?!" O cachorro aprende que quando o interfone toca, tem que gritar (no caso dele latir). Ele aprende a latir por imitação. Mas pode aprender também que ao tocar o interfone há uma séria de mudanças na casa, pois a família se agita por causa da visita. Outro aprendizado é que latir enquanto a pessoa fala no interfone ou telefone é receita certa para chamar sua atenção e ser recompensado com ela. Nem que seja para ouvir um "cala a boca cachorro", que é normalmente gritado instigando mais ainda a brincadeira de latir em grupo.

O cão pode latir como consequência da ansiedade (não a SASA). Um cão que espera receber alguma coisa da pessoa que convive com ele pode ficar ansioso e latir sem parar. Nesse caso há um comportamento eufórico que acompanha o latido ("sapateados", pequenos choros, aumento da frequência respiratória, por exemplo). Neste caso, os latidos sãos sinais de que mais alguma coisa pode estar errada, o cão pode esta realmente precisando de mais atenção e/ou mais atividades físicas e/ou de mais espaço.

Se o seu cachorro late muito e de forma inconveniente, identifique o que está desencadeando o comportamento e passe a ignorá-lo quando ele late. Se tiver dificuldade, procure ajuda profissional para identificar corretamente o contexto desencadeante e para traçar um plano de dessensibilização para ensinar ao cão que latindo ele não conseguirá o que quer.

quinta-feira, 31 de março de 2011

ALTERAÇÕES NO PADRÃO DE COMPORTAMENTO DE CÃES (CANIS FAMILIARIS) IDOSOS, RESIDENTES EM APARTAMENTOS COM SINAIS SUGESTIVOS DA SÍNDROME DE ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO


Autores: Guilherme Soares; João Telhado; Rita Paixão

Abstract: Modifications in the behavioral pattern of a indoors senior dog’s (Canis familiaris), with clinical signs of separation anxiety syndrome.  In a evaluation conducted with indoors dog’s owners, in Niterói city, 61 (59,22%) of these dogs showed clinical signs of separation anxiety syndrome. In this group, the animals that were over seven years of age showed more passive behavior, when anticipate the owner’s departure. This fact suggests an adaptive mechanism to the reality of “being alone”, however, that does not necessarily means that they have adapted to being alone. 
 
Key Words: separation anxiety, dogs, animal welfare 
 
INTRODUÇÃO
A Síndrome de Ansiedade de Separação (SAS) é um dos problemas de comportamento mais comumente encontrados em cães de companhia (DENENBERG et al, 2001). Pode acometer até 40% dos cães (SEKSEL e LINDEMAN, 2001), e afeta diretamente a qualidade de vida dos animais (MCMILLAN, 2000), além de trazer consigo uma série de inconvenientes aos proprietários. É normalmente descrita como um grupo de sinais que o  animal apresenta quando fica sozinho em casa ou simplesmente afastado da(s) pessoa(s) com que tem maior vinculo. Os comportamentos mais descritos são: vocalização excessiva, comportamentos destrutivos; eliminações inapropriadas (micção e defecação) (APPLEBY e PLUIJMAKERS, 2003), entretanto alguns animais podem apresentar vômitos ou depressão (MCCRAVE, 1991). Os animais começam a modificar seu comportamento quando os proprietários se preparam para sair (APPLEBY e PLUIJMAKERS, 2003). Existem relatos de fatores que possam predispor esse quadro dentre eles: raça (MCCRAVE, 1991), sexo (TAKEUCHI et al, 2001), idade (HOWITZ, 2001), proprietários ansiosos (OFARELL, 1997) e animais que convivem com uma única pessoa (SCHWARTZ, 2003). 
 
MATERIAL E MÉTODOS
Foram distribuídos 161 questionários a proprietários de cães de apartamento no município de Niterói-RJ. Os questionários foram desenvolvidos para identificar sinais compatíveis com a SAS e identificar se algumas rotinas e manejos interferiam de alguma maneira o problema. Nesses questionários havia a pergunta “Como seu cão se comporta quando você se prepara para sair?”. Os questionários foram distribuídos de forma aleatória aos proprietários de cães, em clinicas veterinárias e lojas especializadas no bairro de Icaraí. 
 
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos 161 proprietários abordados, 103 responderam e devolveram os questionários, e foram encontrados sinais compatíveis com a síndrome em 61 (59,22%) desses, sendo que um dos proprietários não informou a idade do cão, reduzindo o número de animais para 60 nesta análise. Neste grupo de 60, 25 animais tinham idade superior a sete anos e a maioria mostrou reagir de maneira diferente do grupo  de 35 animais com menos de sete anos (χ2=4,571; GL=1; p=0,016, α=0,05) (figura 1). O grupo de idosos, ao antecipar a partida do proprietário se comportou de maneira mais passiva. Os proprietários descrevem mais o comportamento de “ir para um cantinho e ficar quieto” em 19 (76,00%) cães do grupo idoso. O que, comparado aos 17 (48,57%) animais do grupo mais jovem (com menos de 7 anos) que foram descritos reagir da mesma maneira, pode sugerir uma forma de adaptação a uma realidade imutável para esses animais de companhia. Este resultado sugere uma diminuição na qualidade de vida dos cães que, teoricamente, têm mais proximidade e cuidados mais zelosos de seus proprietários.







REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APPLEBY, D.; PLUIJMAKERS, J. Separation anxiety in dogs: The function of homeostasis in its development and treatment, Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 33, n. 2, p. 321-344, 2003.
DENENBERG, S.; LANDSBERG, G. M.; HORWITZ, D.; SEKSEL, K. A Comparison of Cases Referred to Behaviorists in Three Different Countries, in: MILLS, D.; LEVINE, E.; LANDSBERG, G.; HORWITZ, D.; DUXBURY, M.; MERTENS, P.; MEYER, K.; HUNTLEY, L. R.; REICH, M.; WILLARD, J. Current Issues and Research in Veterinary Behavioral Medicine: Papers Presented at the 5th International Veterinary Behavior Meeting, Indiana: Purdue University Press, 2005, 300p., p.56-62.
HORWITZ, D. F. Dealing with common behavior problems in senior dogs, Veterinary Medicine, v. 96, n. 11, p. 869-877, 2001.
MCCRAVE, E. A. Diagnostic criteria for separation anxiety in the dog, Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 21, p.247-256, 1991.
MCMILLAN, F. D. Quality of life in animals, Journal of American Veterinary Medical Association, v. 216, n. 12, p. 1904-1910, 2000.
O´FARRELL, V. Owner attitudes and dog behaviour problems, Applied Animal Behaviour Science, n. 52, p. 205-213, 1997.
SCHWARTZ, S. Separation anxiety syndrome in dogs and cats, Journal of American Veterinary Medical Association, v. 222, n. 11, 2003. Disponível em:. Acesso em 27 outubro 2005.
SEKSEL, K.; LINDEMAN, M. J. Use of clomipramine in treatment of obsessive-compulsive disorder, separation anxiety and noise phobia in dogs: a preliminary, clinical study, Australian Veterinary Journal, v. 79, n. 4, p. 252-256, 2001.
TAKEUCHI, Y.; HOUPT, K. A. Behavior Genetics, Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 2, n. 33, p. 345-363, 2003.


Trabalho apresentado em forma de pôster e seu resumo publicado nos anais (na página  207) do no XXV Encontro Anual de Etologia - São José do Rio Preto – 2007

LEVANTAMENTO DE CARACTERÍSTICAS SUGESTIVAS DE DOMINÂNCIA APRESENTADAS POR CÃES (CANIS FAMILIARIS) DE APARTAMENTO

Autores: Guilherme Soares; João Telhado; Rita Paixão
Abstract: Survey on dominance characteristics displayed by indoor dogs (Canis Familiaris).  Dominance, according with researches conducted in many countries, is the main motive of aggression directed to human beings. This fact put dogs dominance in highlight on the human-animal interaction and in companion animal welfare. In a survey conducted with indoors dog owners in Niterói, RJ, a group of 62 (60,2%) dogs showed dominance  signs with and without aggressive reactions. These results suggest that more researches on dog dominance and its impact on dog-human interactions are fundamental. 
Key Words: dominance, dogs, animal welfare, interaction animal-man

INTRODUÇÃO
A dominância é um fator importante na organização hierárquica dos canídeos (CAMERON, 1997). Tal característica herdada pelos cães domésticos vem sofrendo influências humanas e, de acordo com estudos em diversos países como Espanha (FATÓ et al, 2006), Dinamarca (RUBJERG et al, 2003), EUA (TAKEUCHI et al, 2001), Austrália e Canadá (DENENBERG et al, 2005), é o principal motivador de agressões contra seres humanos. Este fato coloca a dominância dos cães de companhia em destaque no que diz respeito à interação homem-animal e ao bem-estar desses animais, já que diversos cães são eutanasiados por esta causa. Nos Estados Unidos da América, cerca de 20 milhões de cães são abandonados ou submetidos à eutanásia por ano devido a problemas comportamentais (SEKSEL, 1997). Mais de dez mil anos de convivência com o homem fez do cão doméstico uma espécie ímpar, que apresenta semelhanças com seus ancestrais selvagens, mas que tem suas particularidades, o que necessita mais estudos focados para esse tipo de relação.
 
MATERIAL E MÉTODOS
Foram aplicados 161 questionários a proprietários de cães de apartamento no município de Niterói-RJ. Os questionários foram desenvolvidos para identificar sinais compatíveis com diversos problemas de comportamento e neles havia as seguintes perguntas: “Em que situações seu cão rosna ou tenta morder?”; “Seu cão tem o hábito de copular com as pernas das pessoas ou outro objeto?” e “Como seu cão se posiciona em relação ao condutor quando andam na rua?”. Os questionários foram distribuídos em clínicas veterinárias e lojas especializadas no bairro de Icaraí, de forma aleatória a proprietários de cães residentes em apartamentos. Foram considerados com comportamentos sugestivos de dominância aqueles cães que andavam na frente e/ou puxando a guia de seus condutores, exibiam comportamento de monta indevida e demonstravam reações agressivas quando acordados ou contrariados ou quando mexiam em seu comedouro. 
 
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir de 103 questionários respondidos e devolvidos pelos proprietários, foi caracterizado um grupo de 62 cães (60,2%) (Figura 1) com características sugestivas de dominância. Essa relação e essa diferença de estrutura hierárquica entre as espécies merecem ser mais bem estudadas a fim de aprimorar a interação e melhorar a qualidade de vida de ambos.
  
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMERON, D.B. Canine dominance-associated aggression: concepts, incidence, and treatment in a private behavior practice, Applied Animal Behaviour Science, n. 52, p. 265-274, 1997.
DENENBERG, S.; LANDSBERG, G. M.; HORWITZ, D.; SEKSEL, K. A Comparison of Cases Referred to Behaviorists in Three Different Countries, in: MILLS, D.; LEVINE, E.; LANDSBERG, G.; HORWITZ, D.; DUXBURY, M.; MERTENS, P.; MEYER, K.; HUNTLEY, L. R.; REICH, M.; WILLARD, J. Current Issues and Research in Veterinary Behavioral Medicine: Papers Presented at the 5th International Veterinary Behavior Meeting, Indiana: Purdue University Press, 2005, 300p., p.56-62.
FATJÓ, J; RUIZ-DE-LA-TORRE, J. L.; MANTECA, X. The epidemiology of behavioural problems in dogs and cats a survey of veterinary practitioners. Animal Welfare, n. 15, p. 179-185, 2006.
RUGBJERG, H.; PROSCHOWSKY, H. F.; ERSBOLL, A. K.; LUND, J. D. Risk factors associated with interdog aggression and shooting phobias among purebred dogs in Denmark, Preventive Veterinary Medicine, n. 58, p. 85-100, 2003.
SEKSEL, K. Puppy Socialization Classes, Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v. 27, n. 3, p. 465-475, 1997.
TAKEUCHI, Y.; OGATA, N.; HOUPT, K. A.; SCARLETT, J. M. Differences in background and outcome of three behavior problems of dogs, Applied Animal Behaviour Science, n. 70, p. 297-308, 2001.
 
Trabalho apresentado em forma de pôster e seu resumo publicado nos anais (na página  208) do no XXV Encontro Anual de Etologia - São José do Rio Preto - 2007

COMPARAÇÃO DO COMPORTAMENTO DOMINANTE DE FILHOTES DE CÃES DE DUAS RAÇAS: ROTTWEILER E RETRIEVER DO LABRADOR

Autores: Guilherme Soares; João Telhado; Rita Paixão


RESUMO

Campbell, em 1972, desenvolveu um teste para seleção de filhotes, com objetivo de determinar seus graus de dominância para direcioná-los para uma atividade ou família compatível. No presente estudo, este teste foi aplicado em filhotes de duas raças para avaliar possíveis diferenças comportamentais. Os filhotes (122 Labrador; 71 Rottweiler), com idade entre seis e oito semanas foram testados em seus canis de origem. Os resultados foram comparados estatisticamente com o teste de Mann-Whitney. Os filhotes de Labrador mostraram maior tendência para seguir testador (p<0,01) e atender ao seu chamado (p=0,03), o que influenciou a diferença no resultado da avaliação global (p=0,02). Não houve diferença significativa na comparação entre as raças nas demais fases do teste. Com esses resultados pode-se caracterizar uma maior atração do filhote de Labrador ou uma maior independência  do filhote de Rottweiler em relação ao ser humano

PALAVRAS-CHAVE: comportamento canino, agressão, bem-estar animal.

INTRODUÇÃO:

A necessidade de selecionar cães para diversas atividades ou famílias com aspectos distintos fez com que William Campbell desenvolvesse e publicasse um teste para seleção de filhotes (CAMPBELL, 1972). Esse teste tem por objetivo avaliar o grau de dominância do filhote a fim de enquadrá-lo melhor no perfil da família que o está adquirindo ou da atividade a que se destinará. A dominância é um traço individual de conduta, comum a indivíduos de várias espécies, inato e tem forte importância evolutiva para espécies sociais (CAMERON, 1997). Essa característica faz com que o cão assuma postos mais altos em sua hierarquia social, com o conceito oposto à submissão (BEAVER, 2001). Tal característica é manifestada nos cães de diversas maneiras, sempre com o objetivo de obter o controle dos recursos, que no ambiente doméstico são: alimento, abrigo, brinquedos, a “cama”, atenção e carinho das pessoas. Essa abordagem pode ser pacífica, e muitas vezes o é, ou agressiva. Na abordagem agressiva, o cão se comporta inicialmente com intimidações posturais ou sonoras e posteriormente com ataques direcionados àquele que ameace sua superioridade hierárquica ou a ordem natural da matilha (OVERALL, 1999). A agressão por dominância é o principal problema de comportamento em cães diagnosticado em serviços de etologia clínica por todo o mundo (LANDSBERG, 1990). O objetivo do presente estudo é avaliar se há diferenças entre a tendência à dominância entre cães das raças Rottweiler e Retriever do Labrador a fim de munir os profissionais que trabalham com cães (médicos veterinários, adestradores e criadores) de informações para prevenir problemas relacionados à agressividade por dominância.

METODOLOGIA

Foram submetidos ao Teste Comportamental para seleção de Filhotes de Campbell (1972), 122 cães da raça Retriever do Labrador (52 fêmeas e 70 machos) e 71 cães da raça Rottweiler (35 fêmeas e 36 machos). Todos os cães tinham idade compreendida entre seis e oito semanas. O teste foi realizado nos canis de origem e  pela mesma pessoa em todos os filhotes, pessoa esta que não tivera contato anterior com eles até então e não exibiu qualquer emoção durante os testes. O teste de Campbell é dividido em cinco etapas, cada uma delas corresponde a uma manipulação feita com o filhote, na qual sua resposta é avaliada e classificada como: muito dominante, dominante, submisso, muito submisso e independente/medroso, recebendo notas decrescentes de cinco a um para cada classificação respectivamente. As etapas do teste são: (1) Atração Social - em uma área de ao menos 3m2, o testador põe o filhote de frente para uma parede, se agacha e chama o filhote batendo palmas sem fazer muito barulho, observa se o filhote atende ou não esse chamado e como ele o faz; (2) A Seguir – na mesma área da etapa anterior, o testador põe o filhote encostado na parede, mas virado para si, tendo certeza que tem a atenção do filhote e começa a andar para o centro da área, observando se o filhote o segue e como o faz; (3) Contenção – o testador põe o filhote em decúbito dorsal, o contém nesta posição por aproximadamente 30 segundos e observa sua reação; (4) Dominância Social – o testador põe o filhote em decúbito ventral, em posição de esfinge, com uma mão o contém na nuca, com a outra afaga seu dorso por aproximadamente 30 segundos e observa a reação do filhote; (5) Dominância elevada – o testador contém o filhote com as mãos em torno do tórax do animal e o levanta do solo aproximadamente 20 cm e observa a reação do filhote. As pontuações foram tabuladas e comparadas estatisticamente pelo teste de Mann-Whitney através do programa Sigmastat® 3.0.1 for Windows (SPSS Inc.), com nível de significância de 5% (α=0,05).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela1 mostra os resultados da comparação da pontuação média dos filhotes em cada etapa do teste de Campbell individualmente e no total. A diferença significativa entre as pontuações totais médias das duas raças não representa diretamente que os filhotes de Labrador tenham maior tendência à dominância, comparados  aos de Rottweiler. Porque, o que gerou tal diferença foi o grande número de filhotes de Rottweiler com classificação de independente ou medroso, que são características opostas classificadas da mesma maneira pelo teste de Campbell. Um cão que se mostra independente não pode ser classificado como submisso. Característica bastante evidente na etapa de “A seguir”, na qual a média dos filhotes de Rottweiler ficou inferior a dois, caracterizando a quantidade de indivíduos que recebeu um ponto nesta etapa. Tal fato evidencia uma maior necessidade de que se proceda a um processo de socialização eficiente com esses filhotes para evitar acidentes de ataques a seres humanos. Houve pontuações significativamente maiores dos filhotes de Labrador em relação aos de Rottweiler nas etapas de “Atração Social” e “A Seguir”. O que sugere uma maior atração desses filhotes com o ser humano, já que nessas manipulações os filhotes tiveram a opção de não atender à proposta do testador, por não estarem contidos, diferentemente das outras três etapas do teste. Independente dos resultados do presente estudo, que podem caracterizar comportamentos esperados em filhotes nas duas raças envolvidas, é importantíssimo que se faça uma seleção detalhada específica para cada proprietário ou atividade que seja proposta para o cão. Além disso, é fundamental também que, além de um processo de socialização dos filhotes, cuidados sejam tomados para evitar problemas de comportamento relacionados à dominância. Em um estudo realizado na Espanha (PÉREZ-GUISADO & MUÑOZ-SERRANO, 2009), os autores identificaram alguns fatores associados aos casos de agressão por dominância como: o fato do cão ter alimento a vontade; cães que caminham ou interagem pouco com seus proprietários; cães sem um processo de educação básica; e proprietários que tem um cão pela primeira vez. Todos esses detalhes devem ser observados na seleção dos filhotes, associado ao teste, para assim prevenir problemas de agressividade por dominância nos cães, principalmente nas duas raças envolvidas no presente estudo por serem de porte grande e populares no Brasil.

Tabela 1 – Comparação das médias dos resultados dos Testes de Campbell aplicados a filhotes das raças Rottweiler e Retriever do Labrador

122
              71
3,32
1,67
2,80
1,56
0,02
3,16
1,77
1,84
1,23
<0,01
2,61
0,80
2,80
0,95
0,29
2,39
1,07
2,45
0,97
0,50
2,17
0,52
2,30
0,62
0,27
13,56
4,22
12,20
3,10
0,02


REFERÊNCIAS

BEAVER, B.V. Comportamento Canino: um guia para veterinários. São Paulo: Roca, 2001 431p.
CAMERON, D.B. Canine dominance-associated aggression: concepts, incidence, and treatment in a private behavior practice. Appl. Anim. Behav. Sci,. 52, 265-274, 1997.
CAMPBELL, W. E. A behavior test for puppy selection. Mod. Vet. Pract., v. 53, n. 12, p. 29-33, 1972.
LANDSBERG, G. Diagnosing dominance aggression. Can Vet J., 31, 45-46, 1990
OVERALL, K. L. Understanding and treating canine dominance aggression: An overview. Vet. Med, 94, 975-978, 1999.
PÉREZ-GUISADO, J.; MUÑOZ-SERRANO, A. Factors Linked to Dominance Aggression in Dogs. J. Anim. Vet. Adv., 8, 336-342, 2009.


Trabalho apresentado na forma de pôster com resumo publicado na página 233 dos anais do 37º Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária - Rio de Janeiro- 2010

DETERMINAÇÃO DE TENDÊNCIA À DOMINÂNCIA EM CÃES DA RAÇA RETRIEVER DO LABRADOR


Autores: Guilherme Soares; João Telhado; Rita Paixão

RESUMO

Em virtude da importância das agressões por dominância na área da etologia clínica pelo mundo, em 2006, um grupo de pesquisadores espanhóis estudou o efeito do sexo e da cor da pelagem na tendência a dominância em cães da raça Cocker Spaniel Inglês. No presente estudo, a  metodologia foi repetida para avaliar os mesmos parâmetros em cães da raça Retriever do Labrador. O teste de Campbell foi realizado em 122 filhotes, entre seis e oito semanas de vida e os resultados comparados estatisticamente. Os resultados não evidenciaram diferenças entre os sexos (p=0,86), mas diferenças significativas em relação à cor de pelagem na tendência à dominância no Labrador. Os pretos tiveram maior pontuação global em relação aos amarelos (p=0,02) e aos chocolates (p<0,01).

PALAVRAS-CHAVE: comportamento canino, agressão, bem-estar animal.

INTRODUÇÃO

Ataques de cães a seres humanos geram um sério problema de saúde publica, por exemplo, nos Estados Unidos da América (EUA) o custo anual do sistema público de saúde excede cem milhões de dólares com o tratamento de pessoas atacadas por cães (OVERALL & LOVE, 2001).  A agressão canina ocorre em diversos contextos, dentre eles: predação, defesa territorial, por medo, por dor ou por dominância (LUESCHER & REISNER, 2008). Esse último contexto caracteriza-se por envolver pessoas da família que convive com o cão e por ser motivado por disputas hierárquicas entre o cão e pessoas do seu convívio social (CAMERON, 1997). O contexto de agressão por dominância é citado como  mais frequente nos serviços de etologia clínica em todo o mundo (LANDSBERG, 1990).  Para prevenir este tipo de problema, William Campbell, em 1972, desenvolveu um teste para selecionar filhotes visando à adequação destes com seus novos proprietários e suas famílias (CAMPBELL, 1972). O teste de Campbell identifica o grau de dominância ou submissão do filhote. Aproveitando essa característica, Joaquim Pérez Guisado e seus colaboradores (2006) aplicaram este teste em um grupo de filhotes de cães da raça Cocker Spaniel Inglês e relacionaram maior tendência à dominância aos machos e aos cães de pelagens sólidas comparadas aos de duas ou três cores. Buscando essa mesma relação em outra raça, o presente estudo objetiva, através do teste de Campbell, determinar se há influência de sexo ou cor da pelagem na tendência à dominância em cães da raça Retriever do Labrador.

MATERIAL E MÉTODO

Filhotes de cães da raça Retriever do Labrador (52 fêmeas e 70 machos) foram submetidos ao teste comportamental para seleção de filhotes (Campbell, 1972). Todos os 122 cães tinham idade compreendida entre seis e oito semanas. O teste foi realizado nos canis de origem e  pela mesma pessoa em todos os filhotes, pessoa esta que não tivera contato anterior com eles até então e não exibiu qualquer emoção durante os testes. O teste de Campbell é dividido em cinco etapas, cada uma delas corresponde a uma manipulação feita com o filhote, na qual a resposta do filhote é avaliada e classificada como: muito dominante, dominante, submisso, muito submisso e independente/medroso, recebendo notas decrescentes de cinco a um para cada classificação respectivamente. As etapas do teste são: (1) Atração Social - em uma área de ao menos 3m2, o testador põe o filhote de frente para uma parede, se agacha e chama o filhote batendo palmas sem fazer muito barulho, observa se o filhote atende ou não esse chamado e como ele o faz; (2) A Seguir – na mesma área da etapa anterior, o testador põe o filhote encostado na parede, mas virado para si, tendo certeza que tem a atenção do filhote e começa a andar para o centro da área, observando se o filhote o segue e como o faz; (3) Contenção – o testador põe o filhote em decúbito dorsal, o contém nesta posição por aproximadamente 30 segundos e observa sua reação; (4) Dominância Social – o testador põe o filhote em decúbito ventral, em posição de esfinge, com uma mão o contém na nuca, com a outra afaga seu dorso por aproximadamente 30 segundos e observa a reação do filhote; (5) Dominância elevada – o testador contém o filhote com as mãos em torno do tórax do animal e o levanta do solo aproximadamente 20 cm e observa a reação do filhote. As pontuações foram tabuladas e comparadas estatisticamente através do programa BioEstat® 5.0, com nível de significância de 5% (α=0,05).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após a realização do teste estatístico de Mann-Whitney, não houve diferença significativa entre os sexos para as pontuações dos testes de uma maneira geral nem na comparação das etapas do teste de Campbell individualmente (tabela1). Tal resultado mostra diferença entre as raças Retriever do Labrador e Cocker Spaniel Inglês. No trabalho realizado por Pérez-Guisado e colaboradores, o Cocker Spaniel Inglês teve diferença significativa entre os sexos, sendo os machos mais tendenciosos à dominância naquele estudo. Essa diferença entre as raças pode ser decorrente da idade em que os testes foram feitos, entre seis e oito semanas, já que os Cockers tendem a ser mais precoces do que os Labradores, em decorrência do porte. Cães maiores amadurecem mais tarde, tanto em relação à puberdade quanto ao comportamento (BEAVER, 2001). Mas essa é a idade preconizada para a realização do teste sem distinção de raça pelo autor do teste (CAMPBELL, 1972), e essa mesma faixa  etária foi seguida pelos pesquisadores espanhóis. Como não houve diferença entre os sexos, a avaliação de tendência à dominância relacionada à cor de pelagem teve o total de cães dividido em três grupos (38 Amarelos, 52 Pretos e 32 Chocolates). Na avaliação global do teste, houve diferença significativa entre pretos e amarelos (p=0,02) e pretos e chocolates (p<0,01). Em todas as fases do teste os pretos tiveram diferença significativa em suas pontuações em relação aos chocolates, menos na etapa “A Seguir”,  na qual os três grupos se igualaram estatisticamente (tabela 2). Já em relação aos amarelos, os pretos mostraram-se com maior tendência à dominância na etapa de “Dominância Social”, não tendo diferenças significativas nas demais. Amarelos e chocolates não tiveram diferença significativa em nenhuma das etapas do teste assim como na avaliação global. Os autores espanhóis também encontraram relação da cor da pelagem com tendência à dominância nos cães da raça Cocker Spaniel Inglês, naquele estudo os dourados mostraram-se mais tendenciosos à dominância que os pretos e estes mais que os bi ou tricolores, resultados que corroboraram os de outra pesquisa realizada nos EUA (PODBERSCEK & SERPELL, 1996)

REFERÊNCIAS

BEAVER, B.V. Comportamento Canino: um guia para veterinários , São Paulo: Roca, 2001 431p.
CAMERON, D.B. Canine dominance-associated aggression: concepts, incidence, and treatment in a private behavior practice, Appl. Anim. Behav. Sci,. 52, 265-274, 1997.
CAMPBELL, W. E. A behavior test for puppy selection. Mod. Vet. Pract., v. 53, n. 12, p. 29-33, 1972.
LANDSBERG, G. Diagnosing dominance aggression, Can Vet J., 31, 45-46, 1990
LUESCHER, A. U. ; REISNER, I. R. Canine Aggression Toward Familiar People: A New Look at an Old Problem, Vet. Clin. Sm. Anim. Pract., 38, 1107–1130, 2008.
OVERALL, K.L.; LOVE, M. Dog bites to humans - demography, epidemiology, injury, and risk. J. Am. Vet. Med. Asso., 218, 1923-1934, 2001.
PÉREZ-GUISADO, J.; LOPEZ-RODRÍGUEZ, R.; MUÑOZ-SERRANO, A. Heritability of dominant–aggressive behaviour in English Cocker Spaniels, Appl. Anim. Behav. Sci. 100, 219–227, 2006.
PODBERSCEK, A.L., SERPELL, J.A. The English Cocker Spaniel: preliminary findings on agressive behaviour. Appl. Anim. Behav. Sci. 47, 75–89, 1996.

TABELAS

Tabela1: Comparação de tendência à dominância através do teste de Campbell em filhotes machos (n=70) e fêmeas (n=52) de cães da raça Retriever do Labrador
Etapa do Teste
Machos
(pontuação média)
Fêmeas
(pontuação média)
Valor p*
Atração Social

3,4
3,1
0,37
A Seguir

3,0
3,4
0,27
Contenção

2,6
2,7
0,35
Dominância Social

2,3
2,4
0,50
Dominância Elevada

2,2
2,1
0,73
Avaliação Global

13,6
13,7
0,86
* Calculado através do teste de Mann-Whitney



Tabela 2: Comparação de tendência à dominância através do teste de Campbell em filhotes de cães da raça Retriever do Labrador tomando como parâmetro a cor da pelagem
Etapa do Teste
Amarelos
(pontuação média)
Pretos
(pontuação média)
Chocolates
(pontuação média)
Amarelos x Pretos (valor p*)
Amarelos X Chocolates (valor p*)
Pretos X Chocolates (valor p*)
Atração Social
2,9
2,0
3,2
§
§
§

A Seguir

3,1
2,7
2,5
0,18
0,14
<0,01

Contenção

2,5
2,9
2,2
0,05
0,21
<0,01
Dominância Social
2,0
3,6
2,2
<0,01
0,40
0,04
Dominância Elevada
2,4
3,6
2,0
0,06
0,14
0,84
Avaliação Global
13,0
14,9
12,3
0,02
0,52
<0,01
* Calculado através do teste de Student-Newman-Keuls
§ o teste de Student-Newman-Keuls não foi realizado porque o teste de  Kruskal-Wallis teve como resultado p=0,08

Trabalho apresentado na forma de pôster com resumo publicado na página 234 dos anais do 37º Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária - Rio de Janeiro- 2010

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