Quem sou eu

Niterói, RJ
Médico Veterinário que trabalha no tratamento e no estudo de distúrbios de comportamento em cães e gatos. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/9116323178127878

terça-feira, 31 de março de 2009

Por que educar? É necessário?

Um paradoxo que vejo na relação de algumas pessoas com seus cães é a frase "meu cachorro é meu filho". Sou pai e amo incondicionalmente minhas crias. Neste sentido a referida frase ainda faz sentido pra mim, a pessoa realmente pode dedicar amor incondicional ao seu cão (ás vezes de forma doentia, mas é outra história). Agora, uma das minhas grande preocupações como pai é que cidadãos estarei colocando na sociedade. Ou seja, me preocupo contantemente com a independência da turma e com a sua socialização, por isso educamos em casa e queremos dar a melhor escola que pudermos pagar. Aí entra a parte que a dita sentença não faz sentido, não vejo as pessoas trabalhando a socialização de seus cães, tampouco sua educação. Cães que recebem toda e qualquer visita aos latidos (ás vezes já começa quando toca o interfone ou a campainha). Cães que pulam em toda e qualquer pessoa que entra em sua residência (de 0 a 100 anos). Cães que mendigam comida à mesa. Que latem insistentemente para que o dono brinque com eles. Que arrastam o dono na rua, como se tracionassem um trenó.
Então um proprietário de cão me pergunta: o que devo fazer para educar?
Primeiramente, conhecer o que é o bicho que se tem em casa. Educar um cachorro é diferente de educar um gato, que é diferente de educar um gofinho, Mesmo que alguns princípios sejam os mesmos, a forma de trabalhar com eles é diferente.
Recomendo que todo mundo antes de ter um cachorro que converse com um veterinário, que leia livros sobre comportamento canino e que busque ajuda na seleção de qual é o melhor cão para a minha realidade. Vou citar um exemplo do pessoal da Lord Cão (www.lordcao.com). Uma pessoa comprou um cão da raça Boxer, se apaixonou por aquele olhar lânguido e ficou com o cão. À medida que o filhote foi crescendo, essa pessoa descobriu que o Boxer baba muito (o que é comum a praticamente todos os cães braquicefálicos - esses que parecem que cairam do berço quando eram filhotes e achataram seus focinhos). Depois de um certo tempo providenciaram um novo lar para a antiga paixão. O amor acabou, como um castelo de areia não resistiu aos rios de baba. Essa mesma pessoa, tempos depois, procurou as adestradoras com um outro filhote, pelo qual tinha se apaixonado e jurara amor eterno. E lá estava ele, um pequeno Sharpei, todo enrugado como uma toalha felpuda, aguardando o seu destino de um litigioso processo de divórcio, porque certamente babará o triplo que o cão anterior.
Nas próximas postagens vou dar dicas de como ensinar alguns comandos muito úteis no processo de educação dos cães.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Adestramento X Educação

Um conceito que deve ser revisto pro proprietário de cães é o de Adestramento. Vejo muitos "adestradores" passeando pelas ruas com os cães de seus clientes e ensinando-lhes comandos básicos como: senta, deita, fica e junto. São comandos básicos de adestramento? Sem dúvida. Mas fazem parte de um processo mais importante de educação do cão.
Adestramento é um trabalho feito com o cão para que este desempenhe uma determinada atividade, por exemplo, guia de cegos ou farejadores de drogas. Pouquíssimos cães são submetidos a este tipo de trabalho e são fruto de um processo de seleção que envolve desde a escolha da raça até a escolha do melhor filhote para o determinado trabalho.
Já a educação deveria ser obrigatória para todo e qualquer cão de companhia ou trabalho.
Em minha rotina de atendimentos de distúrbios de comportamento vejo muitos animais mal educados, para os quais essa falta de educação é um sério fator de agravamento do distúrbio de comportamento, quando a queixa do proprietário não é somente relacionada à falta de educação do cachorro.
Nos próximos dias, vou escrever sobre EDUCAÇÃO canina, socialização e comandos básicos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Distúrbios Comportamentais relacionados à idade

Introdução
Com a evolução da clínica veterinária (exames, especialistas e tecnologia), assim como dos produtos de uso veterinário (rações, vacinas e medicamentos), passou a haver uma maior expectativa de vida para os animais de companhia. Este fato associa-se ao despreparo dos proprietários para um animal idoso em casa. Em grande parte das aquisições de cães e gatos não se leva em consideração que estes animais envelhecerão mais rápido que os seus donos e que aquele filhote em alguns anos exigirá cuidados geriátricos. Na maioria das vezes, não há consciência das pessoas que aquele animalzinho brincalhão de cabeça e barriga grandes e olhar cativante começará a “caducar” num período inferior a uma década.
As alterações metabólicas conseqüentes do passar dos anos são causadoras de diversas alterações de comportamento que dificilmente os proprietários relatam aos veterinários, a não ser quando argüidos a respeito.

I - Alterações Comportamentais em Cães Idosos.
Antes de qualquer atitude em relação ao tratamento da alteração comportamental descrita pelo proprietário faz-se necessário identificar qual a origem do problema para proceder ao tratamento adequado. Devemos começar pelo exame clínico e por avaliações laboratoriais (hemograma, dosagens de hormônios – T3, T4, ACTH..., testes bioquímicos – Uréia, Creatinina, ALT, AST e se necessários exames de diagnostico por imagem). Depois de descartados todas as hipóteses de problemas “físicos”, passamos ao tratamento dos problemas comportamentais.
Podemos dividir basicamente em três categorias de causas prováveis de distúrbios comportamentais em cães idosos.
1. Problemas secundários a alterações fisiológicas (o que pode ser confirmado através de exames laboratoriais p.ex.)
2. Problemas comportamentais primários com ou sem patologias concorrentes
3. Problemas conseqüentes do declínio do “status mental” (alterações que até podem ser consideradas fisiológicas, mas somente identificadas em exames post morten no tecido cerebral).

1- Problemas Comportamentais Secundários a Alterações Fisiológicas

Descartando qualquer quadro de doença passamos a pesquisar as alterações sub-clínicas e equilibrá-las, o que trona-se mais complicado em casos de problemas crônicos, pois estes podem continuar contribuindo para a alteração de comportamento.
Exemplificando, o cão idoso normalmente começa a sofrer alterações músculo-articulares que podem causar desconforto e/ou dor, diminuindo seu nível de atividade e gerando reações agressivas por parte deles a seus donos ou a visitantes. Muitas vezes, tratando-se o quadro doloroso o cão volta a seu nível normal de atividade e fica menos “irritadiço”, diminuindo assim as respostas agressivas outrora apresentadas. Além das alterações do sistema locomotor, cães idosos podem apresentar disfunções cardio-respiratórias, que também reduzem o nível de atividade dos animais deixando-os de fora de atividades que antes lhe eram usuais.
Alterações sensoriais também são observadas em cães idosos. Diminuições de olfato e paladar podem deixar o cão com maior seletividade a alimentos, tornando o cão aparentemente inapetente. Uma baixa na audição pode levar a quadros de agressividade, pois o cão fica mais desconfiado na aproximação de pessoas. Associando perdas de audição e visão pode haver problemas na adaptação a novos ambientes.
Problemas gastrentéricos são freqüentemente observados em cães idosos o que por vezes acarreta quadros de constipação ou diarréia, quadro que poderá ser resolvido com exercícios e/ou alterações na dieta (já há no mercado rações senior formuladas para atender às necessidades nutricionais dos animais idosos).

2- Problemas comportamentais primários com ou sem patologias concorrentes

Se o cão já apresenta problemas comportamentais, a idade vem aumentá-los. Um cão já dominante tornar-se-á um cão velho muito “rabugento” e cheio de “vontades”.
Se esses problemas preexistentes forem acrescidos das alterações fisiológicas decorrentes da idade ou de alguma patologia, que comumente já altera o comportamento dos cães, um cão doméstico pode se tornar uma grande “dor de cabeça”.


3 - Problemas conseqüentes do declínio do “status mental”

Diversas alterações neurológicas ocorrem no cão idoso, diminuição no número de neurônios no cérebro, variações nas concentrações de neurotransmissores (noradrenalina, acetiolcolina, dopamina e serotonina) e a diminuição da oxigenação cerebral, devido à esclerose das artérias, promovem diversas alterações de comportamento como: queda na atividade social e dificuldade em obedecer a comandos. Tais fatos exigem dos proprietários maiores cuidados no tocante a evitar acidentes com seus cães.
Todas essas alterações associadas a lesões neurológicas, como as encontradas em pessoas com demência, levam a um quadro de Síndrome de Disfunção Cognitiva.

Diagnosticando

Como para qualquer diagnóstico de problemas comportamentais, um histórico completo é fundamental para identificar o que engatilha ou que contribui para o comportamento indesejado. Determinar origem, duração, progressão, como, quando e com quem ocorre o determinado problema além de explorar ao máximo a rotina da família e do animal, podem ser cruciais para o diagnóstico correto.

Tratando

Eliminado as patologias associadas e/ou equilibrando as alterações metabólicas sub-clínicas. Os tratamentos são os mesmos recomendados para cães jovens: condicionamento, contracondicionamento, orientação dos proprietários, medicamentos, castração, dessensibilização, adequação do ambiente, etc.

Problemas Mais Freqüentes.

- Agressão a pessoas

São diversas as causas de agressão a pessoas em virtude da idade. Como já usamos anteriormente como exemplo, várias alterações ocorrem no organismo do animal. Dores articulares, doença periodontal e diminuição da visão e audição, fazem o cão associar a presença humana à dor ou a “sustos”. Com isto o cão usa de agressividade para “retaliar” o agente “causador” do incômodo, se é bem sucedido na primeira tentativa, com certeza fará outras vezes e progressivamente mais intenso até tornar-se incontrolável. Reações agressivas do cão idoso podem ser conseqüentes de dominância com a qual o cão sempre controlou algum membro da família, por vezes apenas com rosnados e que vão se ampliando tanto qualitativamente quanto quantitativamente, ou seja, passa a agredir mais pessoas e/ou com mais intensidade. Neste caso o proprietário deve aprender a assumir a liderança em relação ao cão com exercícios de obediência, técnicas de contracondicionamento e dessensibilização. O uso de inibidores seletivos para Serotonina (ex. Fluoxetina) poderá ser útil, obviamente se o estado geral do cão permitir seu uso.

- Agressão entre cães

A principal causa de agressão entre cães da mesma casa são as disputas hierárquicas, que se tornam mais freqüentes quando o líder da matilha está envelhecendo. Cães mais novos, a partir de certa idade tendem a tentar “desbancar” o líder da matilha já estabelecido. Tal situação poderá agravar-se caso haja significativa diferença de tamanho, se o mais novo for maior e mais forte, e se o proprietário insistir em reforçar a dominância do mais velho, sérios danos poderão ocorrer. O tratamento para este tipo de problema inicia-se por estabelecer a liderança do mais forte, dando-lhe acesso preferencial a comida, água, atenção e local privilegiado para dormir.
Outra situação particularmente complicada é quando um filhote é admitido na família, sua energia “excedente” pode ser “demais” para cão idoso já instalado na referente família, piorando o quadro se o filhote não responder bem às primeiras correções do veterano. Este último poderá partir para agressão física cada vez mais contundente e/ou passar a desenvolver outros problemas comportamentais ligados a ansiedade, como: vocalizações excessivas, marcação territorial ou destruição de objetos em casa.

- Urina / Fezes fora do lugar

A sujeira em casa, causada pelo cão idoso pode vir a ser um grande problema. Diversas são as causas deste “desaprendizado sanitário”. A função renal torna-se deficiente, o controle do esfíncter da uretra vai se perdendo, provocando liberações de urina involuntárias pelo cão. Além desses fatores, que a idade já providencia, há outros que poderão agravar o quadro como patologias endocrinológicas (hiperadrenocortisismo, diatebetes mielitus, etc.). Nos casos onde o problema é defecação fora do lugar, as causas podem ser ansiedade e/ou perda do controle do esfíncter anal. Nesses casos o tratamento inclui uma alteração na rotina alimentar e maior acesso do cão a áreas externas onde possa defecar sem maiores problemas.
Manter o ambiente sempre limpo e recondicionar o animal para defecar e/ou urinar nos locais adequados são o início do tratamento. Manter o cão na guia nos “locais proibidos” ajuda no processo de condicionamento. Alguns proprietários isolam seus cães para não sujarem diversas áreas da casa, mas isso pode gerar um quadro de ansiedade no cão. As técnicas punitivas também são contra-indicadas.

- Ansiedade de Separação e medo de barulhos

Nesta fase da vida o cão fica mais sensível a alterações em sua rotina, principalmente por causa das alterações já citadas decorrentes da idade. Alguns animais já apresentam sinais de ansiedade de separação desde jovens, porém em virtude dessas alterações fisio-metabólicas passam a agravar o quadro podendo apresentar vocalização excessiva, destruição de objetos, urinar e/ou defecar fora do lugar. O tratamento, como em cães jovens, consiste em habituar o animal a ficar sozinho, controlando-lhe a ansiedade. A Clomipramina é uma opção como adjuvante para o tratamento, se as condições clínicas do cão permitirem.
Alguns “medos”, em particular, aparecem como o medo de trovoadas ou fogos de artifício, por exemplo. Cães que já apresentavam atitudes de medo quando jovens, podem exacerbá-lo com a idade. Enquanto não há uma explicação mais convincente, acredita-se que este aumento da reação por medo ocorra por uma diminuição nos níveis de neurotransmissores no córtex cerebral, agravando cada vez mais a resposta. A primeira opção de tratamento é o contracondicionamento (complicado no caso de medo de trovões, pois simulá-los em condições de adestramento é quase impossível). Alguns medicamentos podem ser úteis no tratamento de apoio, como Antidepressivos Tricíclicos, Benzodiazepínicos de Longa Duração e Inibidores seletivos da recaptação da Serotonina, mas como em qualquer outro caso, deve-se analisar o estado geral do cão antes de qualquer intervenção medicamentosa.

- Vocalizações excessivas

O excesso de vocalização pode ser decorrente de alterações no ambiente e/ou na rotina do cão ou da família, gerando ansiedade, ou de declínio de cognição. Outros cães usam a vocalização para chamar atenção, a atenção do dono, mesmo para punir o cão torna-se um excelente reforço e o animal vai sendo adestrado para latir e vocalizar cada vez mais. Outras vezes a vocalização é conseqüente de isolamento, imposto pelo proprietário, provocado por outros problemas como agressão, sujeira pela casa, comportamento destrutivo, etc. Identificando a “raiz” do problema, o tratamento específico pode ser por contracondicionamento. Por exemplo, o uso de coleiras “anti-latido” (é necessário analisar uma possível associação com quadro de ansiedade, pois esta aumentará com a punição), ou o uso de guia e “cabeçada” (coleiras tipo Gentle Leader®). Para os cães isolados, trata-se primeiro a causa do isolamento para que eles passem a se socializar com a família.

- “Insônia”

Vários são os eventos que desencadeiam a “noitividade” dos cães idosos. As alterações fisio-metabólicas, em parte são responsáveis, por exemplo, com o aumento da freqüência de micções do cão ele passa a acordar para urinar, se o dono acorda e dá atenção ao cão, este passará a acordar para chamar atenção. A administração de benzodiazepínicos ou anti-histamínicos poderá ajudar o cão a dormir melhor.

- Síndrome de Disfunção Cognitiva (SDC)

Sabe-se hoje que as funções cognitivas declinam com a idade. A síndrome de disfunção cognitiva é definida como: alterações comportamentais relacionadas a idade não atribuídas ao estado clínico geral do animal, como estaria uma neoplasia ou uma disfunção específica em algum órgão. Todos os problemas relacionados neste trabalho podem ser manifestações desta Síndrome. Os achados histopatológicos em cérebros de cães idosos são similares aos encontrados em humanos com certos tipos de demência, consiste no surgimento de placas amiloides, as quais inibem o funcionamento dos neurônios. Alguns exemplos alterações comportamentais associadas a esta síndrome são: ansiedade de separação (nova ou intensificada), distúrbios durante o sono, distúrbios de eliminação, desorientação (ficar perdido dentro de um cômodo conhecido da casa), além dos outros comportamentos já descritos. Em um estudo da Universidade de Davis-Califórnia, onde está sendo feito um levantamento da presença de um ou mais sinais desta síndrome em cães entre 11 e 16 anos. Os resultados preliminares apresentam uma prevalência de 62% de positivos (que apresentam um ou mais sinais da SDC), e quanto mais velhos os cães, maior o percentual de positivos (86%). Para o diagnóstico de SDC deve-se buscar um “histórico comportamental” e questionar os proprietários sobre alguns pontos básicos sobre:
- Atividade – Se o cão tem dormido muito durante o dia. E se está acordado de noite.
- Interações – Se o cão tem solicitado mais atenção por parte do dono. Se o cão tem apresentado alguma mudança na forma que “faz festa” para algum membro da família.
- “Comportamento sanitário” – O cão tem feito “suas necessidades” dentro de casa? O cão tem dado sinalizado que precisa “ir ao banheiro”?
- Desorientação – O cão tem se apresentado confuso em casa e/ou no quintal? Se o proprietário tem notado alguma diferença na capacidade do cão reconhecer pessoas e locais familiares.
Para o tratamento é necessário “equilibrar” as demais alterações fisiológicas e tratar quaisquer doenças já instaladas antes, para depois entrar com a terapia específica para a SDC.

II - Alterações Comportamentais em Gatos Idosos.

Não há muitos trabalhos descrevendo os problemas comportamentais relacionados ao gato idoso, mas podemos extrapolar a partir de descrições dos problemas clínicos mais freqüentes, dos problemas comportamentais mais freqüentes e da comparação com o que ocorre com os cães.
Podemos dizer que alguns problemas clínicos são mais freqüentes nos gatos idosos, como: problemas renais (urólitos, FLUTD, nefropatias em geral), hipertireoidismo, neoplasias, complicações dentárias, diabetes mielitus e artrites. Dos 7 aos 12 anos o gato tende a obesidade e a partir dos 12 anos há uma perda de massa corpórea (CUPP, 2002). Quanto mais velhos maiores as chances de desenvolverem problemas, por exemplo, um em cada três gatos acima dos 15 anos desenvolvem insuficiência renal crônica (ETTINGER, 1995). Outro exemplo, esses quadros clínicos podem interferir (provavelmente irão) na rotina dos gatos idosos gerando alterações em seus comportamentos.
Ao relacionar os principais problemas comportamentais relatados em felinos podemos supor como as alterações fisiológicas e os transtornos clínicos relacionados à idade poderão provocar os agravar os problemas comportamentais em felinos.

Agressividade

A agressividade já é uma das principais queixas dos proprietários em relação ao comportamento. Este problema se já existir na “juventude” poderá ser agravado com a idade.
Como ocorrem com cães, os quadros de dor gerados nos gatos por artrites, cálculos renais, miosites, cólicas pela formação de fecalomas, etc., podem provocar respostas agressivas do gato ao ser tocado. E o animal pode passar a associar o toque humano ou a presença humana à dor e se defenderá deste incômodo da maneira que conhece. Se a agressão for bem sucedida, ou seja, seu “agressor” for rechaçado, este comportamento tenderá a se repetir com mais freqüência mesmo que o quadro doloroso tenha deixado de existir.
As alterações sensoriais, como nos cães, também poderão tornar o gato mais “assustadiço”, por não perceberem a presença humana à distância. Só percebendo a pessoa quando está bem próxima, por perda auditiva ou olfativa, poderá reagir agressivamente ao “susto” e passando a associar a presença humana (ou de outro animal) ao susto.
A agressividade direcionada a outro gato pode ocorrer por disputas hierárquicas, com menos freqüência que com cães. Este tipo de agressão ocorrerá, principalmente no caso de introdução de um filhote onde antes o velho ancião era único e soberano.
Casos de redirecionamento de agressão também poderão ocorrer, pelas mesmas razões, ao direcionar a “culpa” do susto ou da dor, que podem ser provocados por barulhos, obras..., ao ser humano mais próximo.

Distúrbios de Eliminação

A perda de controle dos esfíncteres (uretral e anal), diabetes, doença renal, poderão alterar a freqüência e os locais onde o gato anteriormente urinava ou defecava.
Se o gato sentir dor ao urinar ou defecar ele poderá associar a dor a caixa de areia ou ao “banheiro” que sempre usou, passando a rejeitá-lo procurando outra opção.

Outros

A idade vem trazer uma série de “novidades” a um animal que, se não tiver sido muito bem socializado quando filhote reagirá de maneira “problemática” a essa novidade. Uma alteração de comportamento já esperada é o interesse pela comida, o que se deve a algumas alterações fisiológicas e/ou patológicas como: perda sensorial, dificultando o reconhecimento do conteúdo do comedouro como alimento; doença periodontal, que gerará dor na apreensão e mastigação do alimento e a perda de dentes que trará também dificuldades a mastigação. Outro problema que é esperado é a ansiedade de separação, pois todas essas alterações decorrentes da idade são ansiogênicas.



Bibliografia

1- HORWITZ D. F., Dealing Whith Comon Behavior Problems in Senior Dogs, Veterinary Medicine, November, p 869-877, 2001
2- OVERALL, K. L. Clinical Behavioral Medicine for Small Animals, 544p., 1997.
3- ETTINGER S. J., FELDMAN E. C.; Tratado de Medicina Interna Veterinária,4ª Edição, Volume1, p 339, Ed Manole, 1995
4- CUPP C., PEREZ-CAMARGO G., PATIL A., KERR W.; Long-term Food Consumption and Body Weight Changes in a Controlled Population of Geriatric Cats, Proc. Nestlé Purina Nutrition Forum, 2003.
5- HARDIE E., ROE S., MARTIN F.; Radiographic Evidence of Degenerative Joint Disease in Geriatric Cats [1994-1997], JAVMA, 220:628-632, 2002.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Pit Bulls Voltam ao Ataque

Hoje, li duas matérias no http://www.g1.com.br/ onde cães da raça Pit Bull atacaram e feriram pessoas, uma jovem em Chapecó (SC) e uma criança de um ano e meio em Caçapava (SP). Nos dois casos os cães eram de pessoas próximas das vítimas, se soltaram de onde estavam presos e partiram para o ataque. Até quando isso vai continuar? Quando faço essa pergunta não me refiro aos Pit Bulls, mas sim à mentalidade estragada que motiva pessoas, sem nenhum preparo e discernimento, a possuirem cães e, o que é pior, cães muito fortes. Outra pergunta que sempre me faço ao ler essas matérias é se os cães são realmente da raça divulgada, já vi muito vira-lata passar por Pit Bull porque atacou alguém.
É necessário que as pessoas tenham consciência da responsabilidade que é "ter" um cão, principalemente um cão grande e forte. Cães são animais, são carnívoros, são predadores, vivem em matilhas e defendem seus territórios com unhas e dentes (mais dentes que unhas). Se esses animais não forem criados para conviver harmonicamente com qualquer pessoa, podem se tornar perigosos. Digo isso para qualquer cão, do Chiuaua ao Dog Alemão. A maioria dos ataques de cães acontecem contra o próprio "dono" ou pessoa de seu convívio próximo. Pouquíssimos são os ladrões, assassinos e meliantes mordidos por cães que frustram suas atividades ilícitas.
Ontem, chamei a atenção para o fato dos proprietários estarem sendo arrastados nas ruas por seus cães. O pior é que uma coisa tem relação com a outra. Um cão que não é controlado durante um passeio onde é ele que leva a pessoa para passear, não será controlado se achar que uma pessoa está invadindo o seu território ou está "ameaçando" (na visão do cão) a sua integridade física ou de alguém próximo a ele.
Está na hora de mudarmos a mentalidade. Está na hora de não permitirmos que esses cães (que são vítimas também) continuem sofrendo e morrendo porque seus "donos" não os ensinaram a viver numa sociedade humana onde matar é crime. Está na hora de cobrarmos de nossos governos leis de gurada responsável, porque existem pessoas que só começam a enxergar a situação quando há uma lei que as puna se não fizerem a coisa certa. Vejam os cintos de segurança dos carros e os capacetes das motos. Ás vezes percorro meus trajetos caminhando e reparando a quantidade de pessoas que andam sem cinto / capacete nas ruas de Niterói. É ridículo que um cidadão tenha que ser punido por não zelar pela sua própria segurança e o mesmo raciocínio vale para a gurada de cães. Se você não quer colocar o cinto, vá a pé. Se não quer colocar o capacete, vá de ônibus (trem, metrô...), se não quer (não sabe, não gosta) educar o seu cão, tenha um bicho de pelúcia!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Antropomorfismo - Um problema que gera problemas

Hoje, lendo algumas matéria publicadas no www.g1.com.br me deparei com duas sobre cães. A primeira descrevia um desfile de modas para cães com o tema noivas (muito apropriado para o mês corrente, diga-se de passagem). O que me preocupa é a motivação de cada participante do evento http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL473498-5606,00.html. Se o que os levou a fantasiar seus cães foi somente a curtição de expor uma cadela com um véu enorme como crítica social à indumentária usada nos casórios, menos mal. Mas, como eu imagino que seja, se a motivação foi expor o cão fantasiado com orgulho da mãe que assiste ao balé da filha ou do pai que comemora o gol de seu rebento de 5 anos na escolinha, aí é realmente preocupante. Os cães nos dedicam um amor incondicional (vamos chamar assim para ficar mais claro o entendimento) e continuam nos amando apesar das barbaridades que fazemos com eles. E o fato de olhar o cão e ver uma válvula de escape, uma muleta emocional, um filho ou um neto, é jogar na garupa do cão uma responsabilidade muito maior do que ele pode carregar. Os cães são criaturas excepcionais, são inteligentes, leais, carinhosos, percebem nossas carências e frustrações, mas só sabem ser cães.
Dentro dessa ótica, me preocupou a segunda matéria que li (http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL476636-5598,00-CAOMINHADA+REUNE+CERCA+DE+CAES+EM+BLUMENAU.html) , sobre a cãominhada em Blumenau-SC, na qual diversas pessoas caminharam juntas com seus cães por aproximadamente uma hora. Uma iniciativa muito bacana! Fiquei pensando como seria bom se houvessem mais cãominhadas espalhadas pelo país e com uma freqüência constante. Porém, o que me preocupou foi a foto do evento, onde todos os cães que pude reparar andavam na frente de seus donos evidentemente puxando suas guias. Tal postura do peludo é interpretada como manifestação de dominância, ou seja, para esses cães quem manda na relação são eles. E quando são os "reis da cocada preta", esses animais costumam ser bem tiranos com seus súditos de duas patas. A agressão por dominância é o problema de comportamento que mais leva proprietários a procurar veterinários especialistas em etologia clínica no mundo inteiro e, possivelmente, a principal causa de abandono de cães e eutanásia em diversos países.
Eu ficarei imensamente feliz no dia em que os cães forem amados como cães, respeitados e tratados como sua espécie necessita. Neste dia poderemos constatar uma sociedade melhor para os cães e certamente para os seres humanos que os cercam.

Cães que latem muito, um problema com solução.

É comum ouvirmos relatos de pessoas envolvidas em litígios, até judiciais, com seus vizinhos, decorrentes dos latidos excessivos de seus cães. Temos que concordar que um cão latindo exaustivamente pode causar um desconforto que beira a loucura. A boa notícia é que existe tratamento para quase todas as manifestações de latidos excessivos, com terapias comportamentais para cães.
Talvez uma das histórias mais comuns seja a do cão que late assustadoramente (ou chora ou uiva) quando fica sozinho em casa e cujo dono muitas vezes não o escuta latir, ficando para esta pessoa a nítida sensação que algum vizinho ou o síndico do prédio o persegue.
Uma das explicações para o dono do cão não ouvir seus latidos é que, normalmente, o cão começa a latir quando perde o contato olfativo com seu dono, o que normalmente ocorre depois do dono perder o contato auditivo com o cão. E na volta, o cão pára de latir antes de o dono ouvi-lo pelo mesmo motivo.
Cães que latem quando ficam sozinhos em casa podem estar sofrendo de uma doença, uma síndrome clínica chamada de Síndrome de Ansiedade de Separação, que é caracterizada por um conjunto de comportamentos decorrentes de alterações neuro-biológicas no Sistema Nervoso Central dos cães (também podendo acometer gatos). Essas alterações são comparadas àquelas apresentadas por pessoas que sofrem de Síndrome do Pânico e causam um forte impacto na qualidade de vida dos animais. Estes, além das vocalizações excessivas podem apresentar comportamentos destrutivos, micções e defecações em locais inapropriados, vômitos, excesso de salivação e depressão. Pode também trazer como conseqüências comportamentos compulsivos (p.ex. lamber em excesso alguma parte do corpo ou objeto externo, caçar insetos inexistentes, correr atrás da cauda, andar em círculos ou desencadear movimentos ritmados de cabeça ou com o corpo). Todos esses comportamentos que podem se apresentar combinados ou isolados normalmente são inconvenientes para os proprietários desses cães.
Existem duas medidas práticas para prevenir o desenvolvimento dessa síndrome. A primeira é respeitar o período natural de separação do cão, ou seja, imitar o que ocorre naturalmente em grupos de cães, onde o filhote é posto à margem da matilha com cerca de quatro meses. Nesta fase o cãozinho tem que aprender a se virar sozinho e não é mais beneficiado com alimento e abrigo. Para simular esta realidade em casa deve ser providenciado um cantinho para o filhote dormir longe dos quartos. A outra medida é promover o máximo de interação possível com o cão, passear bastante, brincar bastante e escovar diariamente. A única ressalva é que toda interação deverá ser iniciada e finalizada por iniciativa do proprietário, não devendo este responder às solicitações do cão neste sentido para não gerar outros problemas de comportamento no peludo.
É importante ressaltar que os cães podem estar sofrendo de doenças e por isso latem. Porque assim a relação de tolerância e cooperação entre os vizinhos é capaz de mudar e a alternativa de tratar esses animais pode se mostrar mais consensual para todos (principalmente para os cães) do que providenciar a extradição do animal do condomínio ou duelos e atritos entre as partes.
Concluindo, se seu vizinho tem um cão que late exageradamente quando fica sozinho, se compadeça dele e oriente-o. Este cão pode estar sofrendo de um transtorno clínico-comportamental (para não chamar de psiquiátrico). Oriente-o a procurar um Médico Veterinário para que ele proponha o tratamento mais adequado e principalmente ajude-o, pois ele precisará de apoio para o tratamento. Saiba que estará contribuindo para o bem-estar daquela família (incluindo o cão) e poderá estar ganhando a confiança e a amizade de seu vizinho.
Então vão algumas dicas para evitar ou minimizar diversos problemas, inclusive a Síndrome de Ansiedade de Separação:
- Respeite seu cão como ele é, ou seja, um cão. Não queira dele mais do que ele pode te dar;
- Socialize e eduque seu cão desde filhote, assim como as pessoas, todo cão deve ser educado. Todo cão deve ser socialmente aceitável por todos e não somente suportado por algumas pessoas;
- Interaja de forma consistente com seu cão, ele é um animal social que precisa de interação de qualidade;
- Cães de apartamento precisam de exercícios regulares, portanto o cão não deve ir à rua somente para ir ao “banheiro”. Pelo menos 30minutos de passeios diários farão muito bem ao peludo;
- Ensine seu cão a ficar sozinho desde filhote;
- Em casos de mudanças previsíveis na rotina (volta de férias, mudança de horários de trabalho, nascimento de bebês, etc), habitue seu cão a elas, para que ele não se depare com uma situação nova de repente.
- Seja consistente na relação com seu cão, como crianças eles precisam de coerência nas regras de convivência. Por exemplo, se você não quer seu cão em cima da sua cama quando ele estiver sujo ou quando você estiver querendo dormir sem ele, não deixe que ele suba em nenhuma situação.

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